Opinião

A privatização petista

11/02/2012 7 comentários
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Publicada em 12 de fevereiro de 2012

Ethevaldo Siqueira

A presidente Dilma Rousseff acaba de privatizar os três maiores aeroportos do País, inclusive com dinheiro dos fundos de pensão e financiamentos do BNDES. Não é a primeira vez que o PT, no governo, segue caminhos totalmente diversos de suas pregações históricas. Na campanha eleitoral de 2010, a candidata Dilma Rousseff condenava radicalmente todas as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.

Dilma rendeu-se às evidências. Se não optasse pela privatização, o Brasil poderia ter sérios problemas no setor de transportes aéreos na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. A pior solução seria manter os três maiores aeroportos nas mãos da Infraero, quando o Estado brasileiro, semifalido, investe menos de 2% do PIB em infraestrutura.

A dúvida agora é diferenciar quais são as privatizações boas e quais as más. As do PT serão as boas? E as do PSDB, serão privatarias?  Ou, ainda por vingança tucana, os petistas serão acusados de promover uma espécie de “privataria petralha”?

Negação do ideário

Um amigo, filósofo e bem-humorado, costuma dizer-me que o PT só acerta na mosca quando nega seu ideário, quando muda seu discurso radical e faz exatamente o oposto do que propunha em 2002: ”a ruptura total com o modelo econômico neoliberal vigente no País”. Em lugar desse modelo, Lula e Dilma consolidam um modelo que se poderia chamar de neoconservador. E, mais uma vez, ao chegar ao poder, o PT faz aquilo que condenou no passado. Não explica, entretanto, sua mudança de posição nem pede desculpas a quem acreditava em sua pregação anterior.

É bom lembrar que Antônio Palocci, quando prefeito de Ribeirão Preto, iniciou o processo de privatização das Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto (Ceterp), concessionária municipal. A própria presidente Dilma Rousseff, quando pertencia ao PDT e assessorava os governadores gaúchos Alceu Colares e Olívio Dutra, na década de 1990, defendeu a privatização da antiga Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), que foi vendida para a Telefónica em 1997.

Discurso radical

Seria bom relembrar que o PT sempre demonizou as privatizações, da mesma forma que votou contra o Plano Real em 1994, acusou duramente o Proer (projeto que ajudou a sanear os bancos brasileiros) e sequer apoiou a Lei de Responsabilidade Fiscal.

O que se prevê agora é o recrudescimento de uma polêmica interna no PT sobre o tema das privatizações. A ala mais radical é a dos sindicatos de empregados de estatais, para os quais não há maior palavrão do que privatização.

Um dos diretores do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), Emanuel Cancella, publicou no dia 31 de janeiro, no site da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobrás), um dos artigos mais radicais contra as privatizações no Brasil (http://www.aepet.org.br/site/colunas/pagina/206/Servios-Privatizados-caos-instalado-e-preos-exorbitantes-), no qual critica até a presidente Dilma Rousseff por sua disposição de privatizar os maiores aeroportos.

Cancella desafia seus leitores a dar um único exemplo em que “a iniciativa privada é eficiente, onde fez os investimentos necessários e mantém serviços de excelência, com preços ou tarifas razoáveis”. É provável que o engenheiro não conheça a Vale, a Embraer, nem as empresas de telecomunicações privatizadas em 1998, que investiram R$ 200 bilhões na infraestrutura setorial, elevaram o número de telefones do País de 24,5 milhões para mais de 270 milhões e implantaram mais de 80 milhões de acessos à internet, 50 milhões dos quais em banda larga.

Livro polêmico

O debate sobre as privatizações do governo FHC ganhou até um livro polêmico, com o título de A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior (Geração Editorial, São Paulo, 2011). Escrito numa linguagem panfletária, o livro anuncia muito mais do que realmente oferece, ao prometer “documentos secretos e a verdade sobre o maior assalto ao patrimônio público brasileiro” e “a história de como o PT sabotou o PT na campanha de Dilma Rousseff”.

Para quem estuda a fundo o problema, o livro é frustrante, acima de tudo pelo tom emocional, de palanque, sem a menor isenção, com uma montanha de documentos requentados de inquéritos passados. Mesmo assim, penso que todas as denúncias de lavagem de dinheiro e de supostas fortunas tucanas em paraísos fiscais das Ilhas Virgens Britânicas deveriam ser examinadas com todo o rigor pela Justiça e apuradas, até mesmo para comprovar a consistência ou veracidade das acusações. Se eu fosse o autor e tivesse plena convicção da autenticidade das provas e da culpabilidade dos acusados, não hesitaria um minuto em ingressar na Justiça.

Seria oportuno, também, que o autor, tão experiente em jornalismo investigativo, apurasse com muito maior rigor e reunisse o máximo de provas relativas a crimes não esclarecidos e tão polêmicos como a morte do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, e de outros prefeitos petistas. Ou o enriquecimento surpreendente de uma dezena de ex-ministros degolados por corrupção nos últimos nove anos. E mais: que escrevesse tudo em linguagem mais serena e equilibrada.

O esclarecimento dessa pauta seria um grande serviço ao País.

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7 Comentários
  • Thais Sogayar no dia 13/02/2012, 09:03 disse:

    Agora que privatizar nao e mais palavrao, aguardo ansiosa para saber como vao se defender estes petistas cheios de “boa fe”, porem lotados de contradicoes….

  • rodrigo maia no dia 13/02/2012, 09:12 disse:

    recorde Ethevaldo, menos de 3 dias..
    agora onde fica a imparcialidade jornalistica pra falar da privataria tucana?????
    to quase terminando de ler…
    tenho o arquivo .epub pra tablet,, ta afin???
    e outra a dilma fez uma concessão apenas com o espaço físico dos aeroportos..
    o espaço aereo ainda é de controle da nação…
    já a telefonia hummmmm a Anatel é uma grande piada … convenhamos..
    isso vc conhece bem melhor que eu…. essa briga de reversibilidadedos bens não acontecerá no modelo da Dilma… por uma razão simples, não se devolve o que vc nunca teve controle..
    mas pena que o Psol não ganhou a presidencia, mas ainda verei isso acontecer..

  • Norberto A. Torres no dia 13/02/2012, 10:24 disse:

    É simplesmente deprimente ver a degradação ética espalhada por todo esse bando petista. Valores históricos deles? Piada. Sobre o comentário acima: puxa, ainda bem que o espaço aéreo não foi privatizado, não?

  • João Menon no dia 13/02/2012, 11:49 disse:

    Tudo no PT mudou desde sua fundação e desde o princípio tudo foi uma mentira, ou se não vejamos: PT, Partido dos Trabalhadores, fundado por um elemento que não trabalhava, aliás, da para o Lula contar nos de dos os dias que ele trabalhou e como ele tem poucos dedos, significa que trabalhou menos ainda. Nunca foi ideológio até ser invadido por esquerdistas que não encontravam amparo nos outros partidos e não confiavam no PC, que é para onde deveriam ter migrado. Cançado de perder eleições, mudou o discurso e passou a ser bomzinho e todos pensaram que ele havia mudado e de fato mudou: mostrou suas garras e um festival de mentiras invadiu o país. Tomou para si o desenvolvimento alcançado que vinha sendo alinhavado desde 1994,distribuiu cargos aos cabos eleitorais, criou ministérios para os mais chegados, encheu de dinheiro as burras dos deputados, criou uma quadrilha que se instalou no planalto e a Dilma está fazendo o possível para defenestrar. Mentiras, mentiras, mentiras e o sol tapado com peneira e o povo acreditando em tudo. Um dia a farro do boi vai acabar e o partido não precisará mais travestir-se de camaleão.

  • Carlos Augusto no dia 13/02/2012, 17:25 disse:

    Jamais escreva o que os Petistas falam, pois passara vergonha, Eles mudam de ideias e ideais como as aguas dos rios, passam e não deixam caminho de volta, seguem em frente, não estão nem ai para o povo, para eles impera a lei Faça o que mando, e basta. La Nave Vá …

  • Carlos Almeida no dia 14/02/2012, 07:38 disse:

    …Mas, não era isso que vcs. queriam…AGORA VAMOS PRIVATIZAR GERAL!
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  • Carlos U. Pozzobon no dia 14/02/2012, 10:33 disse:

    Creio que a privatização dos aeroportos foi mais um engodo do governo. A discussão centrada na comparação com o governo FHC é falsa. O importante é saber se o modelo proposto vai ser eficaz. Quanto a isso tenho as seguintes objeções:
    1) Se o problema era a incapacidade da Infraero de avançar, mantê-la com 49% significa conservar todo o seu legado de desatinos na administração. É o caso de ter meia cesta de laranjas podres junto as laranjas novas. Adivinhem o que vai acontecer no futuro. Portanto, o correto seria tirar a Infraero.
    2) Não tem cabimento os fundos de pensão comandarem quase os 51% restantes do capital. Fundos de pensão não são capitais privados e sem uma empresa privada nacional forte e que detenha o direito de eleger a diretoria da nova empresa (como foi o caso do Bradesco na Vale), só mesmo um milagre para que não descambe para ser uma continuidade da Infraero com nova roupagem.
    3) Não houve exigência quanto as tarifas pagas nos aeroportos pela sua utilização, seja na taxa de embarque, seja no estacionamento. Ou seja, o consumidor não foi beneficiado pelo modelo de privatização diretamente. O consumidor apenas recebeu uma promessa de melhoria de serviços, o que significa apostar no duvidoso.
    4) A exigência de empresas com experiência comprovada em administração aeroportuária é ridícula, e a associação com uma empresa sul-africana completamente descabida. O problema da experiência poderia ser sanada apenas com uma consultoria internacional com empresa peso-pesado que confrontasse o modelo da Infraero com o seu. Mas ao contratar uma empresa como a sul-africana que administra aeroportos pequenos espalhados pelo mundo, não tem nada de aproveitável. Nesse assunto deveríamos nos abalizar na experiência de grandes operadoras de igualmente grandes aeroportos e não de minúsculos como foi a parceria estabelecida.
    Enfim, não foi uma privatização. Foi um arranjo para permitir que obras sejam conduzidas com mais rapidez. Como tais obras serão pagas com empréstimos do BNDES, tudo indica que em 2014 os problemas vão permanecer tais como estão, com o inconveniente de uma grande desordem e um grande rombo financeiro pelo superfaturamento de preços, coisa que já vinha acontecendo. Para sanar essas calamidades, só mesmo o aumento das taxas de embarque. No final, mais uma vez quem vai “embarcar” serão os brasileiros: em mais uma fria.

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    Escritor, consultor e jornalista especializado em novas tecnologias, colunista do Estado de S. Paulo, colaborador da revista Época e comentarista da Rádio CBN.

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    Comunique-se (2007) e Esso de Jornalismo (1968 e 1978)

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    Para Compreender o Mundo Digital (2008)

    Revolução Digital (2007)

    Tecnologias que Mudam Nossa Vida (2007)

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