{"id":29,"date":"2026-05-22T00:24:45","date_gmt":"2026-05-22T03:24:45","guid":{"rendered":"https:\/\/ethevaldo.com.br\/index.php\/2026\/05\/22\/mostra-de-cinema-de-sao-paulo-2020-post-4\/"},"modified":"2026-05-22T00:24:45","modified_gmt":"2026-05-22T03:24:45","slug":"mostra-de-cinema-de-sao-paulo-2020-post-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ethevaldo.com.br\/index.php\/2026\/05\/22\/mostra-de-cinema-de-sao-paulo-2020-post-4\/","title":{"rendered":"Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo 2020: post 4"},"content":{"rendered":"<p><strong>>><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12999 alignleft\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Natasha-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Natasha-200x300.jpg 200w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Natasha-683x1024.jpg 683w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Natasha-768x1152.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Natasha.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/> <strong>DAU. Natasha<\/strong> \u2605\u2605<br \/>\nidem, Ilya Khrzhanovsky, Jekaterina Oertel, 2020<br \/>\n<strong>DAU. Degenera\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2605\u2605\u2605<br \/>\n<em>DAU. Degeneratsiya<\/em>, Ilya Khrzhanovskiy, Ilya Permyakov, 2020<\/p>\n<p>O projeto DAU \u00e9 t\u00e3o \u00fanico e complexo que fica at\u00e9 dif\u00edcil de acreditar em como ele foi desenvolvido. A ideia inicial era realizar um filme inspirado no trabalho do f\u00edsico Lev Landau, um dos principais cientistas sovi\u00e9ticos, mas ao longo do trabalho o diretor Ilya Khrzhanovskiy resolveu expandir consideravelmente suas ambi\u00e7\u00f5es e construir o que ele chama de projeto multi-disciplinar que envolve cinema, ci\u00eancia, performance e experimento social. O maior passo para isso foi construir em tamanho real uma r\u00e9plica de um instituto sovi\u00e9tico de tecnologia para onde convidou centenas de artistas, cientistas, militares e pessoas comuns. Ao longo de dois anos, eles viveram como se estivessem no per\u00edodo sovi\u00e9tico, com m\u00f3veis, comida e roupas da \u00e9poca, comandando pesquisas cient\u00edficas reais e encenando para as c\u00e2meras do diretor. O desfecho estreou como uma instala\u00e7\u00e3o multi-plataforma e uma s\u00e9rie de filmes que abordam nuances, per\u00edodos e aspectos diferentes desta experi\u00eancia. \u201cDAU. Natasha\u201d e \u201cDAU. Degenera\u00e7\u00e3o\u201d foram os dois primeiros filmes exibidos fora do contexto da instala\u00e7\u00e3o, no Festival de Berlim deste ano. O primeiro, em competi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o dois filmes bem diferentes entre si apesar de utilizarem o mesmo cen\u00e1rio, alguns dos mesmos atores e terem uma unidade entre si.\u201cNatasha\u201d \u00e9 centrado personagem-t\u00edtulo, uma gar\u00e7onete que trabalha na cantina do Instituto. Khrzhanovskiy acompanha sua rotina, mostra a rivalidade que tem com uma colega e dedica boa parte do tempo a sua vida amorosa e sexual, em especial \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com um homem casado. O cineasta n\u00e3o tem pudores em filmar cenas de sexo com direito a detalhes expl\u00edcitos. Quando elege uma personagem, o diretor especifica muito o objeto e o car\u00e1ter de retrato de \u00e9poca e as discuss\u00f5es mais existenciais, que \u00e9 o que o projeto tem de mais interessante, ficam meio dilu\u00eddos, principalmente quando o foco \u00e9 na viol\u00eancia de que ela \u00e9 v\u00edtima. As cenas de tortura, sob o pretexto da den\u00fancia, s\u00e3o muito inc\u00f4modas e o filme termina ganhando um aspecto um tanto mis\u00f3gino.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12998 alignright\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao-200x300.jpg 200w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao-683x1024.jpg 683w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao-768x1152.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DAU-Degeneracao.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Por outro lado, \u201cDegenera\u00e7\u00e3o\u201d, com suas mais de seis horas de dura\u00e7\u00e3o, \u00e9 um cap\u00edtulo muito mais ambicioso e complexo. \u00c9, em certa medida, um resumo do projeto como um todo. Os primeiros 30 minutos, antes mesmo de apresentar os principais personagens, se dedicam basicamente a discuss\u00f5es de teorias cient\u00edficas e filos\u00f3ficas, que os diretores (aqui a codire\u00e7\u00e3o \u00e9 de Ilya Permyakov, enquanto \u201cNatasha\u201d \u00e9 uma parecia com Jekaterina Oertel) conseguem transformar em debates densos e muito atrativos. Como n\u00e3o existe propriamente um protagonista, o filme consegue ser um retrato mais completo da experi\u00eancia como um todo. Existem v\u00e1rios n\u00facleos de personagens que, paralelamente, ajudam a desenvolver temas variados, passando pela fixa\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de um super-homem at\u00e9 questionamentos sobre a semelhan\u00e7a entre o que acontece naquela ambiente e o que Hitler fazia na Alemanha Nazista. De certa maneira, mesmo tentando estudar os mecanismos totalit\u00e1rios do passado, o longa consegue ser bastante atual, antecipando, inclusive, a chegada \u201cautorizada\u201d do autoritarismo ao poder em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo: \u201cesses dem\u00f4nios, eles s\u00e3o dem\u00f4nios honestos. Eles nos disseram que eram dem\u00f4nios\u201d. Do lado contr\u00e1rio, da mesma maneira que em \u201cNatasha\u201d, K sente a necessidade de ser expl\u00edcito quando se fala de sexo e viol\u00eancia, como forma de den\u00fancia. H\u00e1 v\u00e1rias cenas mais expl\u00edcitas, em que se exp\u00f5e \u00f3rg\u00e3os genitais e at\u00e9 secre\u00e7\u00f5es corporais sob o pretexto de registrar os soldados como animais selvagens. O Mesmo acontece na sequ\u00eancias mais violentas como uma que envolve a morte de um porco e o ataque a um apartamento. \u00c9 quando as coisas ficam mais simplificadas e um personagem resume didaticamente as inten\u00e7\u00f5es dos autores: \u201c\u00e9 simples. N\u00f3s constru\u00edmos; eles destroem\u201d. Esses contrapontos desequilibram o filme, mas, no geral, \u201cDegenera\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma experi\u00eancia v\u00e1lida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13000 alignleft\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-204x300.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-204x300.jpg 204w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-697x1024.jpg 697w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-768x1128.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-1046x1536.jpg 1046w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi-1395x2048.jpg 1395w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Filho-de-Boi.jpg 1400w\" sizes=\"auto, (max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><strong>Filho de Boi<\/strong> \u2605\u2605\u2605<br \/>\nidem, Haroldo Borges, Ernesto Molinero (co-diretor), 2020<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Jo\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria de muito sertanejos que vivem uma realidade \u00e1rida tanto por causa da geografia e do clima quanto por causa das condi\u00e7\u00f5es e possibilidades. Jo\u00e3o sonha em ir embora do lugar onde vive sozinho com o pai nas redondezas de uma pequena cidade, onde \u00e9 alvo de piadas dos outros meninos. E eis que surge o circo. \u201cFilho de Boi\u201d, filme dirigido por Haroldo Borges, faz um retrato bastante honesto e cuidadoso de um garoto de 13 anos que se v\u00ea impedido de crescer. Crescer, no mais figurado dos sentidos, como homem, como pessoa. \u00c9 um trabalho delicado de constru\u00e7\u00e3o de personagem, que apesar de algumas vezes parecer apontar para o excesso dram\u00e1tico (o menino foi prepardo por F\u00e1tima Toledo) consegue em Jo\u00e3o Pedro Dias um defensor jovem, mas muito promissor. O roteiro do filme, assinado por Borges e pela cineasta Paula Gomes, diretora do belo &#8220;Jonas que o Circo de Lona&#8221;, mira no universo de fantasia representado pela idealiza\u00e7\u00e3o da vida circense como \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel para a realidade extrema que oprime o personagem. Nesse aspecto, as performances de Luiz Carlos Vasconcelos e Vin\u00edcius Bustani, ambos muito bem, fazem um contraponto muito interessante, representando dois espectros da figura paterna. Um \u00e9 o pai r\u00edgido e superprotetor, que nunca se recuperou do luto de um amor perdido e isola o filho para prepar\u00e1-lo para as durezas do mundo. O outro \u00e9 &#8220;pai&#8221; carinhoso, atencioso, aquele que tem qualquer &#8220;desvio&#8221; perdoado porque representa o sonho da liberdade, mas, na maioria das vezes, chama Jo\u00e3o para a realidade. \u00c9 um papel escrito e defendido com muita generosidade. Embora o cl\u00edmax do filme talvez merecesse uma cena mais forte (aquela da mostra\u00e7\u00e3o no picadeiro), o maior m\u00e9rito de &#8220;Filho de Boi&#8221;, que tem codire\u00e7\u00e3o de Ernesto Molinero, est\u00e1 no &#8220;corpo&#8221; do longa, nas sequ\u00eancias supostamente mais banais do roteiro, nos detalhes, e no fato de sempre procurar o caminho da sensibilidade para conduzir os caminhos de seu jovem protagonista.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12957 alignright\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO-212x300.jpg 212w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO-725x1024.jpg 725w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO-768x1085.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO-1087x1536.jpg 1087w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-LODO.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><strong>O Lodo<\/strong> \u2605\u2605<br \/>\nidem, Helv\u00e9cio Ratton, 2020<\/p>\n<p>Mesmo com v\u00e1rias fragilidades, \u201cO Lodo\u201d \u00e9 o filme mais ambicioso e ousado da carreira de Helv\u00e9cio Ratton justamente porque o terreno que ele explora foge do infantil, que o consagrou, e do retrato de uma realidade que vemos em seus filmes mais \u201cs\u00e9rios\u201d.  Baseado nos escritos de Murilo Rubi\u00e3o, o longa mostra um protagonista transtornado, \u00e0 beira da depress\u00e3o, que procura ajuda psiqui\u00e1trica para tentar entender suas afli\u00e7\u00f5es, mas se assusta com essa possibilidade, se refugiando em suas pr\u00f3prias alucina\u00e7\u00f5es. Ratton acompanha sua jornada deste homem entre o del\u00edrio e a \u201cvida real\u201d ao longo de todo o filme, o que abre (ou deveria abrir) muitos caminhos de narrativa e de linguagem. O problema \u00e9 que o tom do filme n\u00e3o ajuda a estabelecer essa complexidade. \u00c9 um tom meio debochado, que aposta mais no bizarro, no rid\u00edculo, do que numa experi\u00eancia mais introspectiva \u00e9 psicol\u00f3gica. O efeito \u00e9 que os dois planos se confundem, mas n\u00e3o por causa de uma constru\u00e7\u00e3o planejada, mas de uma certa falta de refinamento em algumas decis\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12952 alignleft\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O-210x300.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O-210x300.jpg 210w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O-719x1024.jpg 719w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O-768x1095.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O-1078x1536.jpg 1078w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/MATE-O.jpg 1437w\" sizes=\"auto, (max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><strong>Mate-o e Deixe Esta Cidade<\/strong> \u2605\u2605\u2605<br \/>\n<em>Kill It and Leave This Town<\/em>, Mariusz Wilczy\u0144ski, 2020<\/p>\n<p>O modo como organizamos nossas pr\u00f3prias mem\u00f3rias depende de cada um. Lembran\u00e7as s\u00e3o registradas talvez sem uma precis\u00e3o absoluta, mas de uma maneira muito leg\u00edtima, com o que guardamos dos momentos importantes de nossas vidas. O que Mariusz Wilczynski faz em \u201cMate-o ou Deixe Esta Cidade\u201d \u00e9 bem genu\u00edno porque seu \u201ccaderno de anota\u00e7\u00f5es\u201c sobre seu passado, \u00e9 formado por rascunhos de como certas coisas ficaram gravadas em seu pensamento. O caos que reina na maneira como o diretor concebe seu filme, visual ou narrativo, muito se assemelha ao tipo de registro que fazemos do que j\u00e1 ficou pra tr\u00e1s. O projeto, muito pessoal, demorou cerca de 15 anos para ser completado. Talvez porque olhar para si mesmo, para sua hist\u00f3ria, n\u00e3o seja t\u00e3o f\u00e1cil assim. Quando assume que suas mem\u00f3rias s\u00e3o ou se parecem com rabiscos numa folha de papel, o cineasta polon\u00eas se coloca exposto, vulner\u00e1vel, como se declarasse que n\u00e3o existe uma verdade absoluta pra tudo o que algu\u00e9m j\u00e1 viveu e a maneira como olhamos nossa inf\u00e2ncia, para nossa fam\u00edlia, para a morte, depende do que constru\u00edmos para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-12961 alignright\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-SECULO-20-208x300.jpg\" alt=\"\" width=\"208\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-SECULO-20-208x300.jpg 208w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/O-SECULO-20.jpg 709w\" sizes=\"auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><strong>O S\u00e9culo 20<\/strong> \u2605\u2605\u2605\u00bd<br \/>\n<em>The Twentieth Century<\/em>, Matthew Rankin, 2019<\/p>\n<p>A maneira como Matthew Rankin olha para a Hist\u00f3ria \u00e9 a prova de que para biografar personagens reais e falar sobre pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 preciso abrir m\u00e3o da consci\u00eancia de que o cinema \u00e9 um simulacro da realidade. Rankin utiliza cen\u00e1rios assumidamente surreais e estilizados para mostrar os passos de seu protagonista, um homem que aspirava o cargo de primeiro-ministro do Canad\u00e1, W.L. Mackenzie King. O fato de trabalhar com personagem real, figura p\u00fablica, que exerceu o cargo que queria por tr\u00eas vezes, n\u00e3o segura as obsess\u00f5es est\u00e9ticas e sat\u00edricas do diretor, que tamb\u00e9m escreveu o roteiro desse seu primeiro longa-metragem. O humor popular, acess\u00edvel, que ele utiliza para contar essa hist\u00f3ria, cria um paralelo curioso com a radicalidade visual desse projeto. No entanto, ambos, ironia e pl\u00e1stica, convivem com harmonia impressionante em \u201cO S\u00e9culo 20\u201c. Se Rankin resolve correr o risco da possibilidade de seu filme n\u00e3o ser encarado como um coment\u00e1rio s\u00e9rio (e talvez nem seja) sobre pol\u00edtica, por outro lado, ele se coloca numa posi\u00e7\u00e3o de autor, assumindo suas obsess\u00f5es, valorizando suas refer\u00eancias e justificando, de uma outra forma, todas suas escolhas. O filme \u00e9 de um frescor raro nos dias de hoje, onde o caminho da s\u00e1tira geralmente fica restrito a texto e interpreta\u00e7\u00f5es e o caminho do est\u00e9tico parece se contentar apenas com o visual, em detrimento de qualquer tipo de discurso. O projeto pode n\u00e3o funcionar para todos os p\u00fablicos, ou por parecer tolo ou radical demais, mas o diretor entrega um belo presente para quem comprar seu olhar ir\u00f4nico e muito pessoal para a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13001 alignleft\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Suor-207x300.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Suor-207x300.jpg 207w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Suor-707x1024.jpg 707w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Suor-768x1112.jpg 768w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Suor.jpg 870w\" sizes=\"auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><strong>Suor<\/strong> \u2605\u2605\u2605\u00bd<br \/>\n<em>Sweat<\/em>, Magnus von Horn, 2020<\/p>\n<p>Magnus von Horn resolveu dar sua contribui\u00e7\u00e3o para as discuss\u00f5es sobre a artificialidade das rela\u00e7\u00f5es virtuais na forma de um drama que guarda um espasmos de com\u00e9dia durante um bom tempo. Esse tom indefinido incomoda, mas tamb\u00e9m empresta uns pontos para \u201cSuor\u201d, um filme sobre fingir ser o que n\u00e3o se \u00e9. Sua protagonista \u00e9 a musa fitness Sylwia Zajac, uma celebridade com milhares seguidores nas redes sociais que partilha sua vida de pl\u00e1stico em v\u00eddeos entusiasmados, mas vive num estado semi-depressivo. Uma interpreta\u00e7\u00e3o bem comprometida de Magdalena Kolesnik, presente em praticamente todas as cenas. Ela consegue dar a dimens\u00e3o de como uma pessoa que vive da pr\u00f3pria imagem vira ref\u00e9m justamente desta imagem. O diretor, em seu segundo longa-metragem, consegue traduzir em di\u00e1logos propositadamente vazios e na imagens supercoloridas do filme a fantasia de uma vida perfeita, vendida como produto pelos digital influencers e consumida por f\u00e3s obsessivos que se acham \u00edntimos. Mas o mais interessante \u00e9 acompanhar como a personagem principal desenvolve essa consci\u00eancia sobre sua vida irreal, mas mesmo assim sabe que se colocou numa posi\u00e7\u00e3o em que sair dessa farsa pode fazer n\u00e3o apenas com que ela perca aquilo que j\u00e1 conseguiu, mas que n\u00e3o sobre muito de quem ela acredita que seja.<\/p>\n<p><strong>(+)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lista com todos os filmes que vi na Mostra de 2020 comentados aqui no blog<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Lista com todo os filmes da sele\u00e7\u00e3o j\u00e1 vistos no Letterboxd<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas:<\/strong> a 44\u00aa Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo acontece online a partir de <strong>22 de outubro<\/strong> e vai at\u00e9 dia <strong>4 de novembro<\/strong>. As informa\u00e7\u00f5es detalhas sobre o evento e sobre cada produ\u00e7\u00e3o exibida est\u00e3o no <strong>site da Mostra<\/strong>. A maior parte dos filmes ser\u00e1 exibida na plataforma <strong>Mostra Play<\/strong>, criada para o evento. Cada filme vai custar <strong>R$ 6<\/strong> e pode ser comprado na pr\u00f3pria plataforma com os cart\u00f5es de cr\u00e9dito Visa e Mastercard. A compra \u00e9 de <strong>um filme por vez<\/strong> e ser\u00e1 liberada \u00e0 meia-noite e um <strong>do dia 21 para o dia 22<\/strong>. Quase todos os filmes j\u00e1 poder\u00e3o ser adquiridos no primeiro dia. Alguns s\u00f3 entram na segunda semana. A partir da data da compra, voc\u00ea tem 3 dias pra dar o play e, a partir do momento em que come\u00e7a a ver o filme, tem 24 horas para terminar de assisti-lo. O longa &#8220;Casa de Antiguidades&#8221; vai ser exibido exclusivamente no Belas a la Carte. A compra deste filme ser\u00e1 nesta plataforma pelo mesmo valor. N\u00e3o \u00e9 preciso ser assinante. Quinze filmes podem ser vistos gratuitamente na plataforma <strong>Sesc Digital<\/strong> e outros quinze ser\u00e3o disponibilizados tamb\u00e9m de gra\u00e7a no <strong>SP Cine Play<\/strong>.<\/p>\n<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content --><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>>> DAU. Natasha \u2605\u2605 idem, Ilya Khrzhanovsky, Jekaterina Oertel, 2020 DAU. Degenera\u00e7\u00e3o \u2605\u2605\u2605 DAU. Degeneratsiya, Ilya Khrzhanovskiy, Ilya Permyakov, 2020 O projeto DAU \u00e9 t\u00e3o \u00fanico e complexo que fica at\u00e9 dif\u00edcil de acreditar em como ele foi desenvolvido. 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