{"id":44,"date":"2026-05-22T00:31:46","date_gmt":"2026-05-22T03:31:46","guid":{"rendered":"https:\/\/ethevaldo.com.br\/index.php\/2026\/05\/22\/marte-um\/"},"modified":"2026-05-22T00:31:46","modified_gmt":"2026-05-22T03:31:46","slug":"marte-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ethevaldo.com.br\/index.php\/2026\/05\/22\/marte-um\/","title":{"rendered":"Marte Um"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13946 alignleft\" src=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/4919068.jpg-c_310_420_x-f_jpg-q_x-xxyxx-221x300.jpg\" alt=\"\" width=\"221\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/4919068.jpg-c_310_420_x-f_jpg-q_x-xxyxx-221x300.jpg 221w, https:\/\/filmesdochico.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/4919068.jpg-c_310_420_x-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg 310w\" sizes=\"auto, (max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/>O discurso de \u00f3dio venceu no Brasil em 2018 e mexeu profundamente com rela\u00e7\u00f5es que pareciam inquestion\u00e1veis. De repente, la\u00e7os familiares ficaram em segundo plano quando um posicionamento pol\u00edtico extremista, carregado de brutalidade, foi adotado por parte da popula\u00e7\u00e3o, deixando evidente a fragilidade destas conex\u00f5es. Gabriel Martins enxerga esse Brasil e estas fam\u00edlias divididas, mas se recusa a aceitar que tudo esteja perdido. Seu novo filme n\u00e3o apenas se prop\u00f5e a falar sobre o homem comum, como tenta resgatar um tipo de humanismo que o cinema brasileiro recente muitas vezes rejeita.<\/p>\n<p>Se \u201cMarte Um\u201d come\u00e7a com uma cita\u00e7\u00e3o ao desfecho das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, indicando que abriria caminho para um debate pol\u00edtico mais expl\u00edcito, logo o filme se revela menos \u00f3bvio. Os protagonistas s\u00e3o s\u00e3o pai, m\u00e3e, filha e filho de uma fam\u00edlia negra, pobre, perif\u00e9rica e absolutamente comum. Martins dedica tempo igual a cada um deles, recortando e equilibrando suas quest\u00f5es pessoais, seus dramas cotidianos e as rela\u00e7\u00f5es entre aqueles personagens. As pistas de um discurso est\u00e3o por todos os lados (a quest\u00e3o econ\u00f4mica permeia todo o filme), mas Martins quer mesmo \u00e9 que o brasileiro se reconhe\u00e7a na tela, se recupere.<\/p>\n<p>\u00c9 uma decis\u00e3o ousada numa \u00e9poca em que o cinema, e a arte como um todo, procura adotar uma postura mais combativa para que seu coment\u00e1rio fique mais evidente. O engajamento de Gabriel Martins, que aceita correr o risco de ser interpretado como alienado do momento social, acontece em formato completamente diferente, recuperando o interesse no humano, nos dilemas banais que nos fazem humanos e que ficaram soterrados pela guerra social. \u00c9 uma batalha solit\u00e1ria, mas necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se pode ser associado ao cinema de afeto que, entre defensores e detratores, tenta oferecer um f\u00f4lego novo ao cinema autoral brasileiro, o novo longa de Gabriel Martins manifesta seu engajamento em outros aspectos: o elenco principal, todo negro, retrata o dia-a-dia de uma fam\u00edlia negra, cujos dilemas morais e tramas particulares n\u00e3o passam por envolvimento com criminalidade ou experi\u00eancia de preconceito, o que faz mais pelo debate do racismo do que pode parecer. Ao eleger esta fam\u00edlia como recorte do Brasil, o filme normaliza esses personagens e traduz atrav\u00e9s deles um pa\u00eds que se perdeu.<\/p>\n<p>Algumas vezes a realidade \u00e9 t\u00e3o impositiva que a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 olhar para cima. E \u201cMarte Um\u201d, que tem um personagem que sonha em ser astrof\u00edsico, remete a um dilema recente que virou t\u00edtulo de filme no ano passado: \u201cwhat do we see when we look at the sky?\u201d. O que n\u00f3s vemos quando olhamos pro c\u00e9u? Vemos Deus e buscamos solu\u00e7\u00f5es em sua intelig\u00eancia superior? Vemos a imensid\u00e3o do cosmo e pensamos que aqueles outros planetas podem nos abrigar em tempos de incerteza? Vemos o sonho, a utopia ou simplesmente o futuro?<\/p>\n<p>A cena em que Deivinho, temendo n\u00e3o ser levado a s\u00e9rio, conta para irm\u00e3 o sonho que tem para seu futuro, al\u00e9m de ser uma das mais bonitas deste come\u00e7o de ano, \u00e9 bastante simb\u00f3lica: Deivinho, para al\u00e9m do menino pobre que quer escapar do destino \u00f3bvio planejado pelo pai, representa de certa forma o Brasil, um Brasil menos estado, mais povo, mais gente, que cansou de uma situa\u00e7\u00e3o de desconforto e quer ter um pouco de paz. Nem que seja na imensid\u00e3o do espa\u00e7o, conquistando um novo planeta, sonhando, mas com os p\u00e9s num ch\u00e3o menos acidentado.<\/p>\n<p>&#8220;Marte Um&#8221; fez sua estreia mundial no Festival de Sundance, em janeiro de 2022.<\/p>\n<p><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content --><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso de \u00f3dio venceu no Brasil em 2018 e mexeu profundamente com rela\u00e7\u00f5es que pareciam inquestion\u00e1veis. De repente, la\u00e7os familiares ficaram em segundo plano quando um posicionamento pol\u00edtico extremista, carregado de brutalidade, foi adotado por parte da popula\u00e7\u00e3o, deixando evidente a fragilidade destas conex\u00f5es. 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